SUBLATA LUCERNA NULLA EST FIDES
Uma vez apagada a luz, some a confiança. Catulo, Roma, século I a. C.
ALO-PRADO...
terça-feira, 17 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Loucura Garantida
Seguindo orientação de meu amigo Cimitan, de escrever neste blog sòmente materias curtas, segue a primeira:
Encontrei numa barraca de praia, em Búzios, uma placa anunciando o aperitivo carro-chefe daquela instituição.
EXPERIMENTE "XOTA MALVADA", A NOVA SENSAÇÃO.
"LOUCURA GARANTIDA OU SEU DINHEIRO DE VOLTA"
Gostei e aprovei, embora depois de tomar vários Omeprazol de 20 mg.
Prá quem se interessar dou a receita:
Vodka russa (serve a polonesa) se não tiver uma das duas, a brasileira quebra o galho;
guaraná em pó, canela, leite de côco e erva doce. Dosagem a gosto do freguês.
Loucura garantida...
Encontrei numa barraca de praia, em Búzios, uma placa anunciando o aperitivo carro-chefe daquela instituição.
EXPERIMENTE "XOTA MALVADA", A NOVA SENSAÇÃO.
"LOUCURA GARANTIDA OU SEU DINHEIRO DE VOLTA"
Gostei e aprovei, embora depois de tomar vários Omeprazol de 20 mg.
Prá quem se interessar dou a receita:
Vodka russa (serve a polonesa) se não tiver uma das duas, a brasileira quebra o galho;
guaraná em pó, canela, leite de côco e erva doce. Dosagem a gosto do freguês.
Loucura garantida...
A RESSUREIÇÃO
A RESSUREIÇÃO
Dona Florinha é uma simpática senhora que ficou casada muitos anos com Dr. Antonio, tiveram um filho, Tonhão, solteirão convicto pelo menos até conhecer a princezinha. Hoje Dona Florinha vive de renda, depois de cumprir toda uma vida educando, ajudando o próximo, dançando e indo à academia. Dona Florinha adora dançar e fazer ginástica.
Apesar de separada do marido, ela mantem com o cujo uma relação fraternal, ele é, ainda, a garantia de muita coisa em sua vida, providencia encanador para consertar o vazamento do banheiro, vai a telefônica reclamar da conta alta, dá banho, corta as umhas, perfuma e vaporiza Mina, a espontânea cadelinha da madame.
Quando Dona Florinha foi a um casamento em São Paulo, deixou Mina aos cuidados do ex-marido, que dá-se muito bem com ela. Carinhoso como só ele sabia ser.
Em São Paulo, aliás, Dona Florinha conheceu um fazendeiro do interior, conversaram alguns minutos, ela achou o velho até bem ajeitado. Como ele também era amigo de Cristininha, sua comadre, se um dia quisessem continuar a prosa, quem sabe até mais, saberiam como se encontrar.
Dona Florinha mora em Copacabana, quase na Lagoa, levanta cedo, medita ainda na cama, conversa e joga bridge na internet, pratica golfe terças e quintas, handicap 15, vice-campeã carioca classe senior por dois anos seguidos, mas sua grande paixão é seguir a novela das oito - que começa às nove - pena que sua televisão esteja velha.
Ela luta com a idéia de comprar uma nova, daquela fininha e chique, que fica pregada na parede.
Dr. Antonio vive no Jardim Botânico, um gentleman, paquerador, é o último adepto da cantada pragmática, milongueira. Dona Florinha não fala com ele desses detalhes, poupa-se, e quer, no fundo, que ele seja feliz.
No Natal, ele convenceu sua ex, disse que ela podia dar-se de presente aquela TV, e tanto insistiu que ela pediu prá ele fazer um orçamento. Ele passou uma tarde no shopping por conta disso, foi nas Casas Bahia, Ponto Frio Bonzão, Magazine Luiza, Fenac, Fast e outras lojas que agora não lembro. Levou o melhor preço, Dona Florinha mexeu na poupança, fez o cheque.
No dia que a televisão chegou foi a maior felicidade, agora ela podia ver o José Mayer em resolução digital. Ver a bochecha do Joelmir e o nó da gravata do Boechat. Bela imagem, viva o progresso da ciência !
Depois de instalada, o técnico sugeriu que, se ela quisesse, ele poderia levar a enorme caixa de papelão que embalava a TV. Mas ela preferiu ficar - põe lá no fundo, por favor, ao lado do tanque, vou dá-la de presente ao zelador...
E os dias foram passando, que nitidez, que côres, como José Mayer é bonito !
Chegou o sábado, Mina amanheceu tristonha, chorosa, com o olho esquerdo cheio de ramela. Fechadinho. Dona Florinha apavorou, telefonou para Dr. Antonio pedindo socorro. E lá foram os dois levar a cachorrinha no veterinário do Bairro Peixoto, um japonezinho simpático e competente. Mais competente que simpático, na opinião de Dona Florinha, achava ele careiro. Ela sempre foi muito controlada para assuntos de dinheiro.
Mina tinha uma verruga na pálpebra inferior do olho esquerdo, que havia virado para dentro, irritando o globo ocular. O japonesinho não teve dúvidas, sua paciente devia ser operada, operação simples, vapt-vupt. Ele extirpava a verruga e tudo voltava ao normal.
]
Nessa hora difícil, Dona Florinha entrou em parafuso, mas Dr. Antonio foi firme: se é necessário, que seja. Ela olhou para Mina, voltou seu olhar para o chão, lágrimas desciam pelo seu rosto, mas não havia outro jeito, se tiver que ser, que seja. Pressentimento.
Concordou.
O japonesinho começou a assepsia, o capricho faz parte do DNA dos orientais, preparou o campo operatório, ela não teve coragem de ver, foi para a sala de espera, esperar.
Dr. Antonio, firme e forte, ficou assistindo a intervenção cirúrgica.
O medico-veterinário aplicou a anestesia, resolveu que seria melhor que fosse geral, assim Mina nada sofreria, ela que era toda espevitada, tinha ido até a psicólogo. Mas nada resolveu...
Nosso drama começa agora: ele calculou errado o peso da cachorra, dose excessiva de anestésico - choque - Mina estrebuchou. Morreu.
Dona Florinha desesperou, nem quando havia resolvido separar-se de Dr. Antonio, nem quando comprou seu apê, nem quando seu filho desmanchou namoro com aquela moça que ela adorava, sentiu-se tão frágil, tão triste.
Passado o trauma, os dois resolveram dar um fim digno a Mina, fazer um enterro de gente, ela merecia, afinal ela era quase humana.
Dr. Antonio achou caro o jazigo no cemitério canino da Guanabara, viu também o preço da cremação, era o mesmo de gente, um absurdo, então resolveu:
- Vou lá perto da casa da Xuxa, prá lá de Jacarépaguá, arrumo um terreno baldio, peço ao filho do zelador me ajudar, fazemos a cova e te telefonamos. Te digo o lugar, você pega um táxi e leva Mina, tadinha. Pode deixar que compro flores no caminho.
Será um enterro digno.
Dona Florinha, soluçando, abraçou Tonhão, que também começou chorar. Tonhão veio correndo quando soube do infortúnio, como seria sua vida sem Mina ? E o japonesinho não sabia onde colocar a cara, cara-de-bunda, pura barbeiragem, e ela que achava ele mais competente que simpático, agora nenhum desses adjetivos lhe serviam.
Como é que vamos levar a cachorrinha morta, dentro de um táxi, daqui de Copacabana até prá lá de Vargem Grande ? Mais uma vez, Dr. Antonio, sensato e experiente, resolveu. Pediu ao filho buscar a caixa de papelão da televisão.
Enquanto ele cuidava da cova, Tonhão cuidava do embrulho. Comprou fita isolante, embalou Mina e ficou esperando o telefonema do pai.
Dona Florinha foi ficando mais calma, tomou Olcadil 2 mg, tem sempre na bolsa. Aceitou a situação, não havia outro remédio, mas não teve coragem de ir ao enterro. Tonhão foi só.
Lá pelo meio-dia, Dr. Antonio ligou, cova aberta, flores, deu o endereço ao filho, lugar complicado, rua de terra, cheia de vai-vem. Mas Mina merece. O veterinário ajudou a colocar o embrulho no táxi, Tonhão deixou sua mãe em casa e seguiu. Prá evitar constrangimentos nada disse ao motorista, ele poderia chiar, afinal não é nada comum carregar um defunto dentro de uma caixa de tv.
Andaram, andaram, seguiram as instruções de Dr. Antonio, a bateria do celular foi-se, entraram e sairam de várias ruas sem calçamento, começou tudo dar errado. O motorista, irado, começou a tratar Tonhão com falta de educação. Os ânimos se exaltaram, o carro encalhou num buraco, uma das rodas girando em falso na lama.
Tonhão, estopim curto, para não piorar as coisas, resolveu sair a pé para buscar socorro. Enquanto isso, o motorista continuou tentando: dava ré uns dois metros, engatava segunda, vai, volta, vai, volta. Conseguiu sair.
Tonhão sumiu, foi buscar socorro.
Quando voltou, cadê o táxi ? O motorista foi embora com a caixa, levando, quem sabe? uma bela televisão... Ladrãozinho, queria ver a cara dele ao abrir a caixa.
Um bom tempo depois o filho encontrou o pai, contou o fato, conseguiram até rir do triste episódio. E pactuaram silêncio, Dona Florinha nunca poderia saber o que tinha acontecido. Segredo absoluto. Para todos efeitos, cova com flores por cima...
Dona Florinha quando chegou ao apê, seus olhos ainda vermelhos, tiritou o telefone. Era aquele paulista, lembram-se ?
- Florinha, como vai ?
- Oh! Meu Querido, Mina morreu, estou desolada !
Ele não entendeu quase nada, não sabia quem era Mina, mas gostou de ser chamado de 'meu querido'. (Depois de conviver melhor com os cariocas, ele viu que todos de tratam assim).
- Estou com vontade de pegar a ponte aérea e ir almoçar com você...
- Pode vir, meu querido, foi Deus quem te mandou !
Ele continuou nada entender, masa sentiu-se, realmente, querido. E foi.
Ele chegou no dia que Mina foi.
- Veio substituí-la, ressureição... pensou Dona Florinha.
Esse fato ocorreu faz um tempinho, e os dois estão juntos até hoje. Mas Dona Florinha ainda sente muita falta de Mina.
Ele não conseguiu suprir a lacuna com eficiência. Está fazendo força, um dia, quem sabe, conseguirá.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A Quem De Direito
A Quem De Direito,
peço o favor de avisar o pessoal do Itamaraty, ou seja, aqueles responsáveis pelo "Imbróglio de Tegucigalpa", que a tintura do bigode do Manuel Zelaya só agüenta até esse fim-de-semana. Nosso chanceler, Emb. Amorim, ou então aquele amigo do Lula que fez o sinal de "foda-se", não consigo lembrar seu nome, bem que poderiam mandar a Honduras a referida tintura. Pelo que vi nas fotos, creio que a côr é "asa de graúna", e se não conseguir comprá-la no mercado interno, acione Mexico City: lá tenho certeza que tem. Pancho Villa usava.
peço o favor de avisar o pessoal do Itamaraty, ou seja, aqueles responsáveis pelo "Imbróglio de Tegucigalpa", que a tintura do bigode do Manuel Zelaya só agüenta até esse fim-de-semana. Nosso chanceler, Emb. Amorim, ou então aquele amigo do Lula que fez o sinal de "foda-se", não consigo lembrar seu nome, bem que poderiam mandar a Honduras a referida tintura. Pelo que vi nas fotos, creio que a côr é "asa de graúna", e se não conseguir comprá-la no mercado interno, acione Mexico City: lá tenho certeza que tem. Pancho Villa usava.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O MARIDO DA PROFESSORA
Quando eu estudava em Sao Paulo, fiquei numa segunda-época em matemática e arrumei uma professora particular para estragar minhas férias. Hoje não existe mais "segunda-época", chamam de "recuperação", e é bem mais mole, dão sempre um jeitinho de passar o aluno de ano. Falta de vaga. Naquele tempo dava "pau" quem fosse reprovado.
Minha professora morava na rua Henrique Schaumann, bem lá em cima. Hoje essa rua é uma avenida, larga, com duas pistas, canteiro florido no centro - antes era estreita e feia, de paralelepípedos.
No quintal da casa, um corrego meio poluido (esse termo nem existia), com uma vascilante pinguela, e do outro lado, uma horta com alfaces, couve, cenoura e um espantalho preso na cerca. Ao redor, taboas, guanxumas e pernilongos.
O marido da professora, um italiano quase dobrando o cabo, usando seu surrado terno Clube-Um da Ducal, entre o azul-marinho e o preto, de muito usado tinha cor indefinida, camisa branca volta-ao-mundo sempre com o colarinho virado para cima. (Cheguei a pensar em ofertar-lhe um par de barbatanas, eu as tinha aos montes, ou mesmo sugerir-lhe dois palitos Marquesinhos, orgulho da industria lusitana, com as pontas cortadas - mas minha timidez impedia tais liberdades). A gravata era cor de vinho tinto, unica, com no' cebola nunca desfeito, o que dava um ar de desleixo ao funcionario publico, ministerio da Saude, fiscal de alimento nas feiras. Sua testa refletia a luz, seja do sol, seja da lampada. Contemplando o conjunto, uma perola amarelada enfeitando a gravata. A barriga, maior que o paleto, impedia-o de abotoa-lo, e tambem encobria o cinto, preto, a combinar com o Vulcabras do bico largo. Meias de nailon, brancas, destoando. Caia bem, fazia parte do geral.
Sua patroa, ou melhor, minha mestra, alem de excelente didatica - fui aprovado com louvor - era uma balzaca gostosinha, cabelo negro de tintura asa-de-grauna preso em coque, tailleurzinho justo acentuando suas cadeiras, caneta Bic daquela que ainda soltava tinta e manchava o dedo, sutian um numero menor. Oculos redondos, de tartaruga, lhe caiam bem, miope grau sete.
Enfeitando a casa, a filha do casal, loirinha, rabo-de-cavalo, na minha faixa de idade, enfeitou meus dias...
No primeiro dia de aula, cheguei meio desenxabido, a loirinha chegou com um suco de groselha. Detesto groselha desde o tempo dos horriveis sorvetes do Bar Chic, mas como se diz em frances, noblesse oblige, tomei, elogiando. Depois de alguns minutos, a aula correndo, ax2 + bx + c, teoremas com hipotese e tese, comecei a suar frio.
Era a groselha. A coisa foi piorando, pedi permissao, fui ao banheiro e mandei a groselha de volta. Alivio ! Ao sair, olhos esbugalhados, gosto de corrimao de escada de prefeitura na boca, veio minha loirinha, toalha umida e um copo d'agua ! Uma deusa de bondade, iniciamos uma amizade nada romantica, depois de uma vomitada.
Enfim...
Durante quarenta dias tive aulas e, alem dos teoremas e da raiz quadrada, fiquei gostando da familia. E pela loirinha nasceu um sutil carinho.
Contudo, afinidade mesmo eu tive com o velho. Depois da aula, ele convidava-me a sentar na sala e ouvir tangos e boleros na sua surrada Thorens, junto com uma cervejinha. Sua vitrola era daquelas que precisava de vez em sempre trocar a agulha, ficava fanha, gastava. Ele tinha um monte de long-plays, de Carlos Gardel a Libertad Lamarque, passando por Sylvio Caldas e Lucho Gatica. Foi com ele que tomei gosto por esse tipo de musica. Que sigo.
Vamos ao fato.
Numa dessas tardes, ia eu para mais uma aula. Chegando perto da casa, algo estranho no ar. Muita gente conversando no portao.
- O que houve, perguntei.
- O velho morreu.
Desconversaram. Fiquei atordoado, o que teria havido com meu amigo...
Entrei.
Que quadro triste ! Minha professora e minha loirinha, ao lado do morto, cheio de flores, ele bem que merecia, as flores. O velho, dentro daquele tradicional e unico, Clube-Um da Ducal, gravata vinho tinto, perola amarelada. E quase todos a chorar.
Meu amigo morreu.
Quando elas me viram foi um rebu, chorei ouvindo a mestra falar da honradez e da nobreza do falecido, de seu grande amor por aquele homem, fiel, honesto.
Mas de que adianta, agora ele nem existe mais... esta morto.
Minh'alma ficou dilacerada.
Na hora do enterro, mesma coisa. Que bom homem era o finado, vai ser dificil nascer outro igual, ela dizia, enquanto os outros entreolhavam-se. Cinicamente.
Que mundo cruel, pensei.
Deus perdeu a forma quando o fez, falou-me, baixinho, minha loirinha.
Concordei...
Na saida, exausto e comovido, fiquei uns minutos na porta do cemiterio. Comprei um saquinho de pipocas, estava com fome. Um senhor chegou junto ao pipoqueiro, puxou conversa...
- Morreu quieto, estrebuchou, soltou o corpo em cima dela... morreu em silencio ! Deu trabalho tira-lo de la. Chegou a reportagem, sorte que ninguem sabia quem era ele.
Meu amigo tinha morrido trepando, ou melhor, fudendo num rendez-vous da Rua Aurora.
Morte silenciosa, feliz, envolvendo uma meretriz.
Rima rica.
A professora nunca soube, respeito. A loirinha, sim, contaram no colegio.
Mas guardou segredo, respeito.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
O ZÍPPER ASSASSINO
Já diziam os velhos sábios, o que vale na vida é a experiência.
Mas, como definir "experiência" ?
Num sentido primário, a ligamos às sensações e à percepção de tudo aquilo que sentimos.
René Descartes, aquele mesmo que criou o eixo cartesiano, sem o qual os estatísticos seriam órfãos, também cuidou deste tema: uniu ilusão e alucinação á experiência e chegou ao que chamou de realidade objetiva. A experiência é a complementação da consciência, que vem a ser a série de fatos que nos ocorrem e que vão se somando e se amontoando na larga estante da nossa mente.
A experiência acontece, não é algo que se faz ou se provoca. Não queremos, simplesmente acontece.
Comecei com essa conversinha para ilustrar um fato marcante.
No final do século retrazado, um norte-americano patenteou um sistema de fecho, feito de ganchos e fendas que se agarravam ao abrir e ao fechar. No começo esse tipo de fecho era usado para bolsinhas de guardar tabaco, certamente substituindo as bocetas lusitanas, com vantagem até no uso etimológico de tal palavra. Que hoje leva outro significado, bem mais palatável.
A seguir, a marinha norte-americana começou a fabricar casacos com esse fecho na frente, que chamaram "zípper". Que passou a ser usado também nos sapatos e na barguilha das calças jeans.
Os cariocas adotaram junto com os franceses, o nome do fabricante, Monsieur Éclair, e chamam o zípper de "fecho éclair". Os paulistas seguiram os yanques, chamam-no de zípper, mesmo.
Chamei zípper por muito tempo, agora digo fecho éclair...
O que tem a ver a "experiência" com o fecho éclair ?
Explico: o amigo Caçador-de-Macucos (que Deus o Tenha), ensinou-me que o uso da cueca era dispensável quando usávamos calça jeans. Atenuava o calor. Bastava usar uma camisa longa, porque como ele dizia, o ultimo pingo é sempre dela !
Aboli a cueca.
Veio então o problema, razão dessas linhas. Por duas vezes, ao subir o zípper (hoje, fecho éclair), a falta de experiência causou-me infortúnios: a rapidez ao subi-lo, aliado a distração, fez com que o fecho éclair (outrora, zípper), mordessem meu querido apêndice. Doeu. Muito. Saiu um pouquinho de sangue, mas solucionei o fato que certa habilidade. Devagarinho.
A segunda vez, lembro, e como lembro, foi no banheiro de um botéco em Maceió, numa terça-feira gorda. Dessa vez foi trágico, o "sistema" mordeu meu saco, separando-o em lado norte e lado sul. Mais pra norte que pra sul.
Fui parar no pronto-socorro, urrando no banco de trás de uma kombi, e eu, para tampar minha vergonha ensangüentada, usei uma lata de cêra Parquetina, vazia (óbvio), com a boca para baixo. Não havia médico, não tinham obrigação de lá estar, era carnaval, num sabe ?
Um enfermeiro, jeitoso e delicado, com alguma boa vontade e muita xilocaína para amenizar a dor, demorou dez minutos para separar o norte do sul. Minutos que para mim foram horas. Mas deu tudo certo, deu até para voltar para a avenida. De pernas abertas e imprestável por uns dias.
A "experiência" dessas duas ocorrências eu as devia tomar como norma para nunca mais se repetir. Contudo, preferi conferir mais a tradição, voltei a usar cueca, e subir o fecho éclair (ou o zípper, como queiram), com todo o cuidado desse mundo.
E mandar Descartes para aquele lugar !
terça-feira, 4 de agosto de 2009
A DISCUSSÃO
Enfim, o primo realizou seu sonho, de sociedade com o amigo xipófago, alugou um pedaço de chão e água no pantanal mato-grossense. Uma casinha pequenina, gerânios em flor na janela, sabiá a cantar dentro dela, vasto terraço, uma rede ao fundo, uma cadeira de espreguiçar, só os 1.220 da rádio Globo permitia-se, para saber como estava o Tricolor no panorama esportivo.
O pedaço de chão e água tinha até nome - como nunca fui convidado a lá ter - não cheguei a sabê-lo. Mas, pelo que me narravam - caçadas e pescadas - tratava-se de simpático pedaço.
Chegou o dia, a fazendinha estava pronta para receber hóspedes. Mas, quem ?
O primo não teve dúvida, a pessoa ideal era o Dr. Anísio de Alameda Prata, fazendeirinho de poucos recursos, mas boa gente. Dr. Anísio solicitou levar seu amigo, Professor Oduvaldo Camarinha, aposentado, foi titular da cadeira de Educação Física, mais de trinta anos ajudando a modelar siluetas no ginásio de sua cidade. Contudo, detestava o ofício.
Dr. Anísio e Professor Oduvaldo formavam um par ímpar, viviam juntos, porém poucas palavras trocavam. Amigos até no silêncio.
O primo não sabia dessa característica, logo percebeu que havia entrado numa fria, como passar uns dias no pantanal, quieto ? Contudo, já que tá, que fique !
Na primeira madrugada, o sol a despontar, bolachas e leite em pó (dá gases), pescaram boa parte da manhã. No silêncio.
O primo gostou, peixe não gosta de barulho.
Almoçaram na casinha pequenina, dos gerânios em flor na janela. Comeram bem, quebraram o torto.
Findo o almoço, Dr. Anísio aboletou-se na rede, Professor Oduvaldo na espreguiçadeira, ao anfitrião restou ficar em pé, encostado na porta da entrada, sorvendo seu havana. Um luxo que não abria mão.
Deu-se o silêncio por sete minutos, começaram a conversar...
Dr. Anísio, escarrapachado na rede, chapéu cobrindo meio rosto, disse:
- Professor Oduvaldo Camarinha! com voz firme.
O primo respirou aliviado, afinal vamos ter prosa, quem sabe comentários da pesca ?
- Doutor Anísio de Alameda Prata, respondeu o mestre, voz embargada. Emoção.
Seguiu-se o silêncio.
Quatro minutos depois:
- Professor Oduvaldo Camarinha!! prosseguiu o Doutor.
Imediatamente houve o retruque:
- Doutor Anísio de Alameda Prata ! voz rouca, quase a cochilar.
O primo olhou o relógio, o horizonte, o calor, a "mansinha" na garagem, tanque cheio, gentileza do Doutor.
Outros cinco minutos:
- Professor Oduvaldo Camarinha!!
- Doutor Anísio de Alameda Prata !!!
O primo não se conteve:
- Se vocês prosseguirem com essa discussão, vou-me embora...
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