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quinta-feira, 4 de junho de 2009



TEMPO DO ONÇA


Lavoisier disse que 'nada se cria, tudo se transforma'. Seguindo esse princípio, segue:


Somos de um tempo distante, o 'tempo do onça', tempo dos botecos de esquina, do Bar Chic (do Neca), tempo de ir à missa na São Gabriel, ver as meninas e depois comer um hot-dog no Totem.


Daquele tempo, lembro das porteiras da fazenda pintadas com reclames das Casas Pernambucanas, depois das Lojas Buri. Tempo que curava-se dor de ouvido com Auris Sedina. E rin doente ? Tome Urodonal e viva contente! Tempo das pílulas de vida do Dr. Ross. E do Clube dos Artistas.


Tempo de ir ao grupo escolar de charrete, a mula peidando na nossa cara, tempo das farras na Barra, do bonde-camarão da Avenida Paulista, dos chapéus Cury de legítimo feltro, tempo que adultério era crime e o Corinthians não havia provado, ainda, a segunda divisão.


Somos do tempo do busca-pé e do rojão, das frias festas de junho, e do Cognac de Alcatrão de São João da Barra, aquele do milagre.


Tempo, também, que menino só gostava de menina.


Somos do tempo que futebol era esporte só de macho, tempo que ninguem sossegava nos bailes, dançando juntinho gastava-se uma sola de sapato a cada fim de ano, ao som de Sylvio Mazzucca ou da Orchestra Tabbajara.


Dos plays boys de lambretta botando banca na Augusta. Da inauguração do Frevo e do rodeio. Tempo que o telefone era preto e a geladeira era branca.


Somos do tempo que penicilina curava gonorréia, tempo do confete - pedacinho colorido de saudade - e da serpentina no carnaval, do corso na Nove de Julho, tempo do bicarbonato Carlo Erba, do Engov, da Rádio Nacional. Tempo que pó era apenas poeira levantada do chão.


Tempo do terno risca-de-giz e da Cuba Libre, do Nelson cantando Lupicínio e Maysa curando a dor-de-cotovelo de Dolores Duran, tempo de Denner ditando moda, da calça santropeito de boca apertada. De poder ir torcer pelo tricolor no Pacaembú e só se preocupar com a mãe do juiz.


Somos do tempo do Doi-Codi, do comigo-ninguém-pode, da ditadura envergonhada, que, apesar, acertou em alguns pontos. Tempo que as Malvinas quase foram argentinas.


Somos do tempo que 'ficar' era só 'não ir', tempo de sair a noite sem lenço e sem documento, caminhando contra o vento. De comer outro sanduíche no Jeca, Ipiranga com São João, no cú da madrugada.


Somos do tempo da brilhantina e do laquê, da Glostora e do Gumex, e do correio sem sedex. Tempo que só mulher usava brinco e as portas não tinham trinco, as calças não perdiam o vinco. Lembram-se do 'senta, levanta, senta, levanta' ? E picada, só na bunda, injeção doída, depois de febre profunda.


Tempo que coca era só refrigerante, gentleman era aquele que abria a porta do carro e beijava a mão das senhoras. Tempo do tergal, do ban-lon, do terilene, da Emilinha, da Dircinha e da Marlene. Tempo do mocinho com cara de bonzinho e bandido com cara de máu. Tempo do fortificante de óleo de fígado de bacalhau, aquele do português carregando o peixe nas costas e que tomava-se tapando o nariz.


Somos do tempo das cocótas, da Copa Roca, tempo que podia-se fumar qualquer cigarro, em qualquer lugar. Tempo que só o preço podia ser 'barato', que 'bicho' era só um animal, e 'cara', o rosto de qualquer mortal.


Somos do tempo do coreto, da banda, da retreta e do cigarro Yolanda, tempo da estriccnina um veneno mortal, tempo do leite de magnésia de Phillips, do sagú, do fubá Mimoso, do arroz brejeiro, aquele plantado só no brejo. E do fosfato que curava amnésia, até certo ponto...


Somos de um tempo tão abrupto que a todos nós engoliu, político corrupto já existia, sempre existiu, tempo que Benjor se chamava Jorge Ben, carne de bife era acém, tempo que strogonoff era prato chique, que níquel de tostão e zona com bordel era programa de alguns réis.


Tempo da Cibalena, do Veramon, da revista Fon Fon, dos filmes do Rin Tin Tin, do Mappin e da Sears, do Peter Pan e do pó de pirilim pim pim. Tempo das estampas do sabonete Eucalol, e tomava-se Calcigenol.


Somos do tempo da PRK-30, do Edifício Balança-Mas-Não-Cái, do rádio capelinha, dos contos da Carochinha, do Rhun Creosotado, que pelo nome parece bebida, não era. Era remédio para bronquite. Tempo da Cafiaspirina, da compressa de anti-fluogestina, do Biotônico Fontoura, do Bálsamo Bengüe, tempo do maracanazzo. E do Henê Marú, salvando cabelo duro. Do Almanaque Tico-Tico, tempo que trabalhador que trabalhava ficava rico, com trabalho.


Somos do tempo do óleo de linhaça e da andar de maria-fumaça, de ler 'O Cruzeiro', escrever com caneta tinteiro, tempo da boate Ton Ton, da cera Parquetina, do DKW Vemag e dos discursos do Lacerda. Que derrubaram Getúlio.


Mas... Ufa ! Sóbra ainda algum tempo para curtir a vida. Sem medo de uma bala perdida.







2 comentários:

Selena Sartorelo disse...

Nossa! Como fazia tempo que não vinha aqui..vim pensando nisso e percebi que sou do tempo que sente saudade do tempo em que perdiamos tempo para fazer e manter os amigos.

Muito bom o teu texto...viajei em vários de seus tempos e percebi que muito deles eu também vivi...Sou de um tempo que tinha mais tempo. Mas não existe tempo melhor do que aquele que você realmente viveu. E esse é um tempo que eu quero lembrar.

beijos
E apesar do frio desejo muito bons tempos prá você (esse apesar foi só prá fazer tipo, eu adoro o inverno).
Mas tem umas lembranças alí que me deixaram meio apavorada...elas já tem um tempão!!!!!!rsrsr.

Papagaio Mudo disse...

épa

mas não logas mais?

abrazos,

Gustavo

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